Ensaio sobre a cegueira (isso não é exatamente uma resenha)

15 de outubro de 2012
Eu tenho uma certa dificuldade em escrever sobre livros. Sendo mais específica, em fazer resenhas. Aprendi o passo-a-passo no segundo ano do colégio, depois no terceiro, também na faculdade (em duas cadeiras). Na teoria, eu sei como fazer mas, quando tento colocar na prática, não sai coisa nenhuma. Fico presa, estagnada, sofrendo da "maldição da folha branca" como se estivesse desaprendendo a escrever. Basicamente isso. Até gostaria de relatar mais sobre o que leio, mas aí penso que existem blogs que escrevem resenhas tão maravilhosamente bem que fico com vergonha de postar algo que me deixará enrubescida perto dos outros. Tomo por exemplo o livro O morro dos ventos uivantes. Li, me apaixonei completamente pela história, pelos personagens, por tudo que o envolvesse. Então, toda serelepe por esse amor-miojo pelo livro, abro o Word, digito o título da obra, e paro por aí. Levo uma semana (literalmente!) para decidir se começo escrevendo uma resenha como-deve-ser do livro ou se apenas falo sobre a minha mais recente paixão para com cada personagem. Enrolei, enrolei, e não fiz nada. E provavelmente não farei.

Demorei tanto para escrever que larguei tudo de mão e decidi iniciar nova leitura. O escolhido foi Ensaio sobre a cegueira do José Saramago, que prontamente coloquei em mãos ao ver na biblioteca da faculdade. Quando eu era pequena me arrisquei em ler As intermitências da morte, do mesmo autor, mas abandonei logo nas primeiras 50 páginas. Talvez porque fosse complicado de entender, não só pela escrita lusitana, mas também por tratar assuntos que envolvessem Governo, Militares e Política. Crianças geralmente não curtem/entendem Governo, Militares e Política. Mas então, como eu ia falando, comecei a ler Ensaio Sobre A Cegueira. Ainda não terminei (estou nas páginas finais), mas acho que já posso fazer um texto sobre isso. E isso não é exatamente uma resenha.
—/—/—
Trânsito normal, carros no sinal fechado aguardando abrir. Abre. Todos os carros avançam, mas um fica. Pessoas se aproximam, indignadas por atrapalhar o caminho, o motorista abre a janela e profere as seguintes duas palavras: estou cego. Mas esse é apenas o primeiro dos que viriam a dizer isso. A partir daí, há uma sequência de pessoas que vão ficando cegas, sem mais nem menos, sem nenhum porquê nem explicação. Apenas se sabe que é uma cegueira branca (coisa desconhecida para a medicina) e que, provavelmente, é contagiosa (o que também é um mistério, como pode uma cegueira ser contagiosa?).

O Governo logo é alertado e, percebendo que esse mal desconhecido se alastrava cada vez mais, fez o que acreditava ser necessário para conter o contágio: inserir todos os infectados por esse misterioso véu branco numa quarentena. Claro, ninguém sabia o que era isso, o que significava que essa quarentena poderia durar uma semana (caso voltassem a enxergar, também misteriosamente), quatro semanas, quatro meses, quatro anos. Tanto faz, desde que o mal fosse cortado pela raiz. Uma vez, numa cadeira de Direito, meu professor disse que o desconhecido é o que dá medo. Vivemos numa sociedade razoavelmente bem organizada porque quase tudo está previsto, para quase tudo temos respostas, sempre tem alguém capacitado para lidar com as situações. Talvez medidas drásticas sejam um pouco melhor entendidas se analisadas desse ponto (entendidas, não realmente justificadas).

É então decidido ocupar qualquer espaço público para abrigar ("esconder" seria mais correto) essas pessoas contagiadas, porque, é sabido, aquilo aumentaria. A primeira pessoa a ser reclusa é o médico oftalmologista que havia avisado às autoridades dessa anormalidade. Sua mulher, mesmo que não cega, se finge de tal e adentra junto com o marido no carro que levaria ao hospício (abandonado, a melhor estrutura por enquanto para abrigar muita gente). Enfim, a partir desse ponto, aquele hospício lota de pessoas e a história do livro se passa quase toda dentro daquele lugar. E também é, a partir desse ponto, que a história fica "interessante".

Saramago, ao tirar os olhos dos personagens, nos faz enxergar o convívio humano de uma maneira diferente. A primeira coisa, e bem simples de uma primeira análise, é o fato de nenhum personagem ter nome. Nem a cidade, nem nada. Cada personagem pode ser um espelho de quem lê. O autor é quem narra, e os chama tal qual como qualquer um poderia chamar alguém, caso não soubesse o nome da pessoa e apenas a visse. Tem o "médico", a "mulher do médico", a "rapariga de óculos escuros", e por aí vai.

"Não tarda que comecemos a não saber quem somos, nem nos lembrámos sequer de dizer-nos como nos chamamos, e para quê, para que iriam servir-nos os nomes, nenhum cão reconhece outro cão, ou se lhe dá a conhecer, pelos nomes que lhes foram postos, é pelo cheiro que identifica e se dá a identificar." (Pág. 64)

O autor também discute sutilmente, enquanto deixa a narrativa fluir, sobre toda a questão estética e moral. O que nós vemos quando não enxergamos? As roupas trocadas, rasgadas, imundas, não têm mais nenhuma importância. O cheiro fétido é para todos, a fome também.

"Acabando nós todos cegos, como parece ir suceder, para que queremos a estética, e quanto à higiene, (...) Provavelmente, só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são." (Pág. 128)
"Tirando a tristeza irremediável causada pela cegueira de que inexplicavelmente continuavam a padecer, os cegos, valha-lhes isso ao menos, estavam a salvo das deprimentes melancolias produzidas por estas e semelhantes alterações atmosféricas, comprovadamente responsáveis de inúmeros actos de desespero no tempo remoto em que as pessoas tinham olhos para ver." (Pág. 200)

Eu não sei como acabar de escrever esse post. Anotei várias citações, trechos que resumiam muito bem o que eu queria ter escrito enquanto pensava no banho. Mas deixa assim, isso não é exatamente uma resenha.

P.S.: Estou louca para terminar de ler esse livro para poder ver o filme.
P.S².: Sério, leiam esse livro.
P.S³.: Eu não tenho mais Word, como eu disse no primeiro parágrafo. Falei isso porque fica mais bonito. Escrevo agora tudo no WordPad. E escreveria mais, mas tenho sono.

  1. Oi flor!
    Tá lindo d+ o blog e os botões ficaram ótimos sem a imagem, perfeito!

    bjaoo e obrigado pelo carinho :)

    ResponderExcluir
  2. Na minha opinião está uma das melhores resenhas que já li na vida, vou te explicar o porque. Porque muitos blogs quando vão escrever uma resenha, colocam a sinopse que vêm acoplada atrás do livro, juntamente com o número de páginas, qualidade e nome do autor. Já você quando foi escrever sua "resenha" colocou exemplo, fez um texto, escreveu de uma maneira sublime. Na minha opinião, é assim que deveria ser resenhas... Perca esse medo de escrever resenhas, escreva como se escreve qualquer outra postagem e ficará ótima, porque você tentou.

    Hoje no Acesso Permitido, está publicada a primeira postagem do F.Click, uma postagem com contém uma lista de quatro blogs que conheço há muito tempo e que admiro muito, é uma oportunidade de conhecer novos blogs, que não sinônimos de novos leitores, seguidores, visitantes, blogueiros e principalmente de novos amigos. Um beijo e um grande abraço do seu querido leitor, Acesso Permitido.Entre pelo perfil ~*

    ResponderExcluir
  3. Eu já li alguns livros do Saramago. Tudo é muito sublinear,cheio de segredos e motivos.
    A resenha ficou ótima.
    http://www.avidaemletras.com/

    ResponderExcluir
  4. Bom dia.

    'Ensaio Sobre a Cegueira' é mesmo genial. Adoro ambos - livro e filme. Mas, é Saramago. A crítica social feita nessa obra é espetacular. Seja ao individualismo horrível em que o mundo está mergulhado; seja à corrupção que homem empresta a tudo, mesmo nas situações mais inusitadas.

    Parabéns pelo blog. Excelente!
    Grande abraço!

    ResponderExcluir

 

Follow by Email

Theme e conteúdo por Marina R. - © Marina's Journal 2011 ~ 2017