A aranha

1 de novembro de 2012

Calor insuportável. Pessoas tomando sorvete como se fosse água, gente se abanando, todo mundo afastado. Quanto menos calor humano melhor. Não, quanto mais sombra melhor. E sombra era o que eu não encontraria caso continuasse com a ideia de seguir o caminho até em casa à pé e não entrasse naquele ônibus que recém havia chegado na parada.

Entro, sento no ônibus, abro meu livro. Estou lendo Lolita, a tão polêmica obra de Nabokov. Leio um trecho, faço umas manobras com as mãos a fim de pegar a água na bolsa sem bater na mulher ao lado e não derramar nada em cima do livro emprestado da biblioteca. Entre um trecho aqui, um gole acolá, vou sacolejando dentro do coletivo.

"(...) Já haviam digerido o sorvete, estava à espera de uma grande refeição e já começava a impacientar-se". Nesse trecho, justo nesse trecho, eu reparo um movimento estranho do lado da minha perna. Ignoro e releio a mesma parte de antes. O pequeno vulto se remexe e então me vejo obrigada a descobrir o que está acontecendo. Quando abaixo minha cabeça, ela está lá. Subindo, devagar e ao mesmo tempo desesperada, à procura de algo que não saberia definir. Entro em pânico, vejo suas garras alongadas à frente da pequena cabeça se movimentando sem parar, tateando a vítima. Ela sobe, eu me desespero. Ela prossegue o caminho, eu vejo a morte. E, no próximo passo que ela der, assim pensou eu, mato essa aranha sem dó. Mas não tinha como. A mulher ao meu lado era espaçosa, eu tinha uma bolsa entre meus braços me imobilizando e ao mesmo tempo não queria fazer escândalo. É só uma aranha, diriam as velhinhas. Mas eu sei que não era só mais um aracnídeo que povoa esse mundo em cada entranha onde possa fazer ninho. Claro que não é somente isso. Todas têm alguma origem demoníaca, fazem parte de alguma convenção onde o veneno mortal lhes é distribuído logo ao nascer. E eu tinha um  desses seres de outro nível, de outro mundo, na minha frente.

Não podendo matá-la, fiz o óbvio de assoprar tão forte, como o lobo mau contra a frágil casinha de palha,  a ponto de fazer voar a aranha assassina. Me vi livre, mas ainda não me senti confortável. Havia perdido minha inimiga de vista, como poderia sossegar? Conferi meus braços, pernas, a lateral do ônibus. Aí eis que ela surgiu. Toda maligna, triunfante, subindo em um teia fina até minha bolsa. Entrei em desespero. Onde eu a ponho? Como eu a mato? Balancei a bolsa, mas não adiantava muita coisa. Ela insistentemente continuava a subir e alçar suas garras cada vez mais alto. Então, de súbito, tive a genial ideia de por no chão aquilo em que a infeliz se agarrava, fazendo a pequena monstra também se deitar ao solo do ônibus. Dito e feito. Lá estava ela, agora em desvantagem, por estar perto de meus pés. Em outro momento eu sentiria pena, mas ali, dentro daquele ônibus, me senti vitoriosa ao cobrir a cabeça da aranha com a sola de meu All Star. E não retirei meu pé do lugar até a hora de descer.
  1. Vou fazer um comentário nada a ver com o texto, mas tenho que fazer! Não lembro nome do filme, só lembro que era de um porquinho falante. E não, não é aquele filme "Baby, o porquinho falante" (ou algo assim), é de outro porquinho... Enfim, nesse filme tem uma aranha e aranha vira amiga do porquinho e começa a escrever mensagens sublimares na sua teia de aranha, depois ela salva o porquinho da morte e morre, mas deixa suas "crias" antes de morrer. Bem, esse filme mudou totalmente a minha visão das aranhas. Ta que elas são perversas e assustadoras, algumas até parece monstros, porém, elas só fazem o que fazem para sobreviver :(
    Eu tenho que dizer que depois desse filme nunca mais matei nenhuma aranha! Eu apenas "jogo" elas pra bem longe de mim :B
    ASUHSAHUSAHUHUSAHUAUHSAUHASUHSAUHSAUHSA
    E sim, filmes de animais falantes é muito idiota, mas esse me comoveu de certa forma :T Deve ter sido pq assisti naqueles dias sabe... HAHAHA

    http://rascunhosdasuuka.com

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  2. Esses dias uma aranha estava no capuz da minha jaqueta na sala. Eu ia virar o Homem-Aranha (na nova versão ele é mordido no pescoço..), e minha amiga tacou ela. Por azar, acho que ela caiu na minha mochila, nunca mais tive sinal de vida do bicho. Só sei que não virei o Homem-Aranha #desapontada

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  3. Matadora profissional...rs.
    Att.,
    Luks

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  4. Oláaa, visitam meu blog? É novinho ele :)

    http://meudesejoprofundo.blogspot.com.br/

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