Nas raízes da goiabeira eu sentei e chorei

17 de junho de 2015

— Já viu o que fiz lá na frente de casa?

Foi assim que meu pai abordou  o assunto. A cara era de pesar, de quem logo em seguida vai contar uma má notícia. Curiosa, fui até o pátio e notei o que tinha sido feito e o que estava para acontecer: a morte do meu pé de goiaba. As folhas e galhos menores estavam em uma pilha no chão enquanto que o tronco inclinado aguardava, já desfeito de tudo, seu ultimato. 

A justificativa  dada foi que a goiabeira faz sujeira demais e que é difícil deixar o pátio sempre limpo; também foi dito que faz muita sombra e isso não é bom para as florzinhas que se pensa em plantar. Dá para entender, né? Um adulto entenderia muito bem essas explicações. Mas não tem como eu ser adulta diante da árvore que passei a minha infância.

Essa goiabeira já estava aqui quando meu pai comprou a casa, antes de eu nascer. Era para ter sido cortada porque ficava próxima do muro e do portão e assim poderia atrapalhar. Por insistência da minha mãe, permaneceu.

Ali, entre o muro e os trilhos do carro, a árvore teve que se espremer e se virar na vida para sobreviver. E se virou tão literalmente que tomou a forma que precisava para continuar viva: reta até certo ponto, bem curva da metade em diante. Um L de ponta-cabeça.

Esse formato fez na árvore uma espécie de escada de galhos de tal forma que era possível subir até o topo facilmente. Para escalar criei meu próprio método e sabia exatamente onde segurar e onde ir para não cair. Levava mochila lá para cima, meus ursos de pelúcia (não gostava de bonecas), comida... e as vezes tentava até levar meus gatos. Escrevia alguma coisa num caderninho e observava quem passava na rua — ninguém podia me ver.

Além do refúgio para minha cabecinha infantil com planos mirabolantes, minha maior diversão era ficar de cabeça para baixo presa num galho, segurando todo meu corpinho pelas pernas e as mãos soltas balançando.
  1. Bom, se eu contar que eu e meu irmão dançamos em volta da goiabeira cortada de casa quando crianças pode parecer loucura, e até maldade, depois desse texto lindo e nostálgico... mas a verdade é que minha mãe disciplinava a gente (corrigia, batia) com as varas finas da goiabeira. Sempre que a gente aprontava, ela ia no quintal, colhia uma vara, limpava e vinha conversar com a gente no quarto... Hoje em dia, eu lembro com carinho das disciplinas e varadas que tomamos no traseiro e da goiabeira, ajudadora da minha mãe e do meu pai no quesito educação. Enfim... enquanto alguns sonham sobre seus galhos e aproveitam da sua altura, outros enxergam nela o inimigo numero um. Quantas realidades, não é mesmo?

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  2. Own :( fiquei triste com vocês hauhauahu. Lá na minha casa em Porto Alegre a gente tinha uma também, mas chamava muiiiiiiiiito bicho e acabamos cortando pq sou alergica e brincava ali por perto. Aí era um perigo né? Agora o que dá trabalho lá é a bergamoteira, dá muito fruto e exige tempo pra colher tudo. Beijos <3

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  3. Poxa, Marina, que triste! Sei como é essa sensação. Na casa da minha vó tem uma árvore que existe desde antes que nasci e eu sinto essa mesma ligação que você, dela fazer parte da vida, das lembranças e ser especial. Minha vó adora as plantinhas dela e nunca que teria coragem de fazer a maldade que seu pai fez com sua goiabeira. Melhoras pra você e que a bichinha descanse em paz! Xêro <3

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  4. Uma pena que a vida da sua Goiabeira tenha chegado ao fim :(

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  5. a última vez que inventei de subir em uma goiabeira (eternidades atrás), passei a mão em cima de um ninho de bicha-cabeluda na tentativa de me segurar num galho. triste tentativa :( mas eu sinto falta das goiabas :~

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